sábado, 8 de abril de 2017

UM TORCEDOR DO AVAIRENSE F.C., by Roberto Costa

"Panem et circenses"
Juvenal - Sátiras

Uma delícia o pirão com linguiça assada na brasa.

O João das Dores, brasileiro, natural da Costeira do Pirajubaé, casado, com quarenta anos de idade, biscateiro de profissão, residente e domiciliado num casebre de madeira carcomida no Morro do Mocotó, riu feliz e descontraído, dois dentes faltantes à frente. Festa de pobre é barriga cheia: a mulher e o filho, dedos bem lambidos, responderam à alegria.

Mas a alegria do João não vinha só do pirão com linguiça. Torcedor ferrenho do Avaírense F.C., João não estava para supérfluos. Essencial era o jogo de domingo: Avairense, o seu time do coração, contra o Vasco da Gama. Mais essencial ainda a aquisição, afinal, do rádio portátil, exatamente naquela semana, após sofrida poupança espremida do magro rendimento. Ah, o rádio portátil! Essa mágica da eletrônica, degrau da ascensão que iria fazê-lo sentir-se admitido como num clube fechado.

João entrou naquela imensa loja. Sentia-se atrapalhado, diminuído, compactado ante ao luxo exposto.  Televisores, geladeiras, máquinas de lavar, pratarias, relógios, todo o conforto estonteante dos ricos ali, tão perto e tão distante. Lesse o jornal, sugerira o vendedor, o rádio viria já, do depósito. João leu a página de esportes, que é o que o jornal tem de interessante. Fora isso, bom mesmo é notícia de preço baixando. O resto é pra embrulho.

Trouxeram o rádio, João pagou, o gesto definido, redentor,a ponta de orgulho: à vista!

No domingo João saiu, faceiro de camisa listrada de azul, branco e preto e, claro, o radinho colado ao ouvido.

Entrou no Estádio Orlando Scarpelli infiltrando-se pela geral. A massa ululante ao som da fanfarra esquecia o sufoco da vida, descarregava dores, promissórias, contas vencidas. Gritavam e gritavam, sobretudo palavrões, que domingo é dia de higienizar a mente e domingo de pobre dura apenas noventa minutos.

João acomodou-se no lugar de sempre e integrou-se no coral das feras. Com toda a força dos pulmões, tão logo o juiz entrou em campo, xingou-o de ladrão e outras coisas. Bateu palmas na entrada do Avairense e vaiou o Vasco. Mas digno de registro foi o que aconteceu aos trinta e três minutos do segundo tempo, quando o Vasco ganhava por um a zero. Não é que sua senhoria, o árbitro, atendendo a um incrível aceno do bandeirinha, entendeu de anular o gol de empate do Avairense? Tumulto no gramado, tumulto nas arquibancadas, tumulto na geral, tumulto na alma do João. Inquieto, atônito, desvairado e insatisfeito de só esbravejar, João atirou um troço no bandeirinha. Ah, terrível pontaria! Atingido na cabeça o homem bambeou das pernas e  beijou a grama. João delirou. Estava vingado. E veio o médico, massagista, vieram os homens da maca em socorro do bandeira. Veio também um radialista que noticiou em primeira mão aquele fato inédito: o auxiliar das laterais fora atingido com um rádio portátil!

- Como é que foi? Como é que disse aí o locutor?  - Perguntou João ainda vibrando pelo seu  belo arremesso.

- Jogaram um rádio no bandeirinha.

- Um rádio? Um rádio? Aí, meu Deus!

Dor aguda. A mão sobre o peito, instintiva. No calor da emoção, João não resistiu à perda irreparável. Faleceu a caminho do hospital. 

* Roberto Costa é associado do Avaí Futebol Clube. O conto acima foi escrito na década de 70 e publicado em 1979, em antologia da Editora Lunardelli. Como disse o autor, coisa do tempo em que os cabelos ainda tinham cor. E completou: "Do tempo em que eu assistia a clássicos no remendão, no meio da torcida deles, sem risco algum. Havia um pouco, bem mais, de civilização no mundo. Do tempo em que o tempo não havia ainda causado os estragos da idade nessa carcaça, que minha mãe,(coitadinha) segue dizendo que é bonita, coisa de mãe. Para não me antipatizar com metade do público da cidade, na época cunhei o time Avairense F.C."  Texto  publicado neste blog em 5 de março de 2013. Foto acima: Avaí / Divulgação

10 Comentários:

Roberto disse...

Da série vale a pena ler de novo.
Pois é, André, houve um tempo em que se podia assistir a jogos no meio do reduto do rival. Eles também se misturavam com Avaianos. Como as coisas degeneraram. -RC
Mas depois de 99 nunca mais entrei no Salão. - RC

Novas disse...

Prezado Roberto Costa um primor.
Novas

Alexandre Carlos Aguiar disse...

Baita texto. E concordo contigo, depois do Roubo do Século a coisa mudou.

marcos disse...

Eu também estava lá em 99. Prometi que nunca mais entraria naquele estádio. Porém, tive que abrir uma exceção para assistir o Roberto Carlos.

Carlos avaiano disse...

Nem pra Roberto o qual admiro seu trabalho entro lá.

André Tarnowsky Filho disse...

RC,

Sim, mas muito oportuno para a data com clássico...

André Tarnowsky Filho disse...

Aguiar,

É aquela situação de ganhar a qualquer custo, com uma visão de empresário bem distorcida...
Perdemos a essência!

André Tarnowsky Filho disse...

Marcos,

Estive lá em 2009, Copa SC, e na final de 2012...

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