quarta-feira, 26 de abril de 2017

AS CABEÇAS OCAS DO FUTEBOL, by Alexandre C. Aguiar

No próximo domingo começam as emoções de mais uma disputa de título do Campeonato Catarinense, em dois jogos entre Avaí e Chapecoense. São os dois representantes do Estado na elite do futebol brasileiro e prometem partidas de excelente nível técnico, muita cordialidade, empenho e…
Peraí, peraí!
Nível técnico é possível. Empenho? Vai, quem sabe surja uma bufunfa por aí e os jogadores dos dois times se dediquem a jogar alguma coisa parecida com futebol. Mas cordialidade? Esticou-se uma corda bamba para isto.
É sabido que existe, em Santa Catarina, uma rivalidade acirrada entre Capital e Interior. Isso não é de agora. Não é deste campeonato. E nem se sabe ao certo como começou, mas está profundamente encravada na mente de todos os moradores deste Estado. Que dizer, de todos, não, mas de boa parte, sim, e de lado a lado. Ninguém é santo nesta história. Que não me apareça nenhum coroinha a se fazer de inocente.
Há constantes trocas de acusações de moradores de um lado e de outro do Estado, que não vou reproduzir aqui porque meu blog não é lata de lixo. Mas quem é da Capital e viaja para alguma cidade além do Planalto sente esta animosidade encalacrada por lá. E quem mora em outras regiões do Estado e resolve vir até o litoral é tratado como cachorro sarnento. Estou mentindo? E o futebol, é claro, esta máquina de fazer malucos, tratou de elevar esta rixa à potência máxima.
Há diversas teses levantadas ao longo do tempo tentando entender a razão desta luta tribal e insana, coisa de gente mal amada. Eu já ouvi e gostei de uma muito interessante, que fala da geografia e da história do Estado, onde, no passado, devido à precariedade das estradas e pela formação cultural de cada região, acabou por separar a todos em fronteiras mais parecidas com a antiga Cortina de Ferro do Leste Europeu. Quando as estradas foram construídas e todos puderam interagir, já havia um estranhamento e uma distância entre os povos muito grande.
O jogo deste domingo está revivendo esta animosidade estúpida em uma proporção gigante. Muito de coisas mal resolvidas do passado foi reanimado. Mas a nova inquietação diz respeito ao trágico acidente aéreo que vitimou jogadores, comissão técnica, dirigentes e jornalistas em Novembro passado e colocou não apenas a Chapecoense, mas o resto do mundo de luto. E neste aspecto, a animosidade ressuscitada das entranhas deste ódio tolo entre Capital e Interior, trouxe para o palco da vida comum, que é do que se trata o acidente, as grosserias de arquibancadas em relação aos cuidados que se teve com a instituição “chapecoense”.
A mídia, com seu marketing esdrúxulo, tratou de assumir o estado de cão sem dono que se tornou o tema Chapecoense, transformando-a em mais daquilo que não é. E as demais torcidas, principalmente daqui de Santa Catarina, adotando uma raivinha juvenil, coisa de meninos mimados, faz beicinhos e trata os “chapecoenses” com uma fúria ainda mais acentuada, talvez por ciúme ou por algum sentimento menor, vá saber.
Em Criciúma, no último jogo do returno, um bando de retardados que se dizem torcedores, daqueles que não honram as cuecas que vestem, tratou de deixar bem claro de qual lado da humanidade eles estão, e que não é o lado do bom senso. Já na Capital, há uma meia dúzia de alguns sem noção que parecem querer enveredar pelo mesmo caminho.
A situação deve ser encarada sem se confundir os atores. A Chapecoense que vem jogar com o Avaí o primeiro jogo da final é um time de futebol, que disputa o campeonato e pretende ser campeã, assim como o meu Avaí. A Chapecoense que sofreu as agruras daquele acidente, e que merece o nosso respeito, está em outra esfera de conversa, daquelas que pode nos fazer mais humanos e conscientes de nossa vulnerabilidade. É o que importa e para que todos aprendam, mídia, torcedores e jogadores.
Espera-se que, de uma vez por todas, essa fúria tribal, de selvagens acéfalos, seja encerrada, pelo bem da sensatez e das boas práticas do esporte. Aquela atividade, notavelmente conhecida, onde se deve saber perder e saber ganhar e que vença o melhor.
* Alexandre Carlos Aguiar é associado do Avaí FC

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