terça-feira, 5 de maio de 2020

O CÃO, A COPA, O AMOR, by Roberto Costa

Quem não teve um cão na infância, ou um pouco mais tardiamente, na juventude, perdeu uma das mais raras e belas experiências. 

Na casa de meus pais, rua da Ultralitho, da raça fox tivemos dois. Ambos pretos, com os tradicionais detalhes em amarelo, rabinho pitoco. Belos companheiros.

O primeiro vi morrer estupidamente, atropelado por um motorista negligente. Década de 50, um trânsito desprezível em número de veículos, tinha tudo para desviar-se sem riscos aquele motorista, mas nada fez. Atingido, defronte a nossa casa, o pequeno animal foi jogado contra o meio-fio da rua e ali ficou, já sem vida, para meu pranto e desespero.

Um pouco mais adiante, talvez intencionalmente e visando uma substituição à altura, meu pai apareceu com outro, idêntico, também pitoco e então nós o batizamos com o mesmo nome do anterior, Buck. Eu lhe dava água, a comida e muito carinho.

E o novo Buck passou a contribuir também com sua importante parte para a alegria e o bom ambiente da casa. E crescemos uns bons anos , eu, meus dois irmãos e nossa irmã, num lar modesto, mas desfrutando do requinte de ter com aquele cão a amizade pura e desinteressada que não vemos permear entre os ditos sapiens.

O tempo passou, mudamo-nos para a rua Duarte Schutel, proximidades do Departamento de Saúde Pública, e Buck foi junto. Apartamento térreo e aos fundos uma vila, e terrenos baldios e espaço para um pequeno cão vadiar. Numa das casas da vila, um morador de origem espanhola, sujeito mal encarado e nunca de bem com a vida.

E chegou o ano de 1962 e a Copa, e com a Copa, o jogo Brasil e Espanha. Como se sabe, naquele jogo a Espanha saiu à frente no marcador, ensejando ao azedado vizinho fazer espoucar umas duas caixas de foguetes, com os quais mexeu com os brios de toda a vizinhança. Ao final do jogo, teve de suportar o troco dado pelos brasileiros, o foguetório da virada, comandada pelo jogador Amarildo.

Mas não quis deixar barato o espanhol. Meia hora depois bateu em nossa porta tendo nas mãos uma galinha morta e, de forma grosseira, acusou nosso cão de haver entrado em seu quintal e matado a penosa, exigindo indenização. Meu pai deu-lhe algum dinheiro para livrar-se e, como era de seu feitio, sentenciou: Vamos dar esse cachorro para alguém, não quero confusão com vizinhos. De nada adiantaram os argumentos dos filhos, de que duvidavam, de que o cão era manso, de que o espanhol estava era se vingando. Interessou-se pelo Buck o senhor Nilo Machado, comerciante estabelecido no centro da cidade e morador do Bom Abrigo.

Uns dois anos depois, estando em Bom Abrigo, descendo distraidamente em direção à praia e conversando com alguém, ao passar defronte uma casa com muros relativamente altos, vi um pequeno fox atingir com esforço o topo do muro frontal, seis, sete vezes mais alto que ele, descer para a rua e brindar-me com os mais alegres saltos de alegria, as patas atingindo meu peito, ele todo se movendo freneticamente. O Buck, o nosso cão. Depois de dois anos, detrás do muro, reconhecera-me pela voz, depois de dois anos eu habitava ainda, em lugar muito especial, a sua memória. Meus olhos marejaram de emoção enquanto o abraçava e acontece de novo agora, enquanto escrevo. Foi a mais pura, intensa e efusiva manifestação de amor que experimentei ao longo desses setenta e dois anos de vida.

* Roberto Costa, o "RC" é associado do Avaí FC. Texto publicado originariamente em 20/09/2013. Foto: O Estado 12/04/2014

2 Comentários:

Marcio disse...

Meus olhos também marejaram...
Ao lembrar dos meus velhos amigos...

Roberto Wendhausen (BettoRW) disse...

Belo texto...
Quem teve ou tem um amigo de quatro patas, entenderá!

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