Me engana que eu gosto, by Felipe F.B. Silva
Esta semana eu tive uma aula prática de hipocrisia, disciplina que
deve estar sendo ensinada em alguns cursos de comunicação. Abri o Diário Catarinense
e lá estava um anúncio da RBS incentivando os catarinenses a torcer por
times da terra. Trazia a imagem de 10 torcedores (nove torcedores e uma
torcedora, pra ser mais exato) das equipes da primeira divisão estadual
e abaixo uma mensagem que dizia mais ou menos assim (não bati foto,
falha minha): “torça para times catarinenses, não para times de outros
estados”. Que lindo! Se não fosse muito macho (boys don’t cry, já diz aquela clássica canção), choraria.
Bom, aí chega quarta à noite, o último representante catarinense na
Copa do Brasil entra em campo para defender o futebol do nosso estado,
esse que a RBS diz que temos que valorizar no anúncio do DC, e…
a RBS passa para 80% de Santa Catarina jogo do Sport Club Corinthians
PAULISTA pela Libertadores. A partida da Chapecoense contra o Cruzeiro,
só para o Oeste e Meio-Oeste.
Catarinense, torça para time catarinense, mas não espere que eu passe
jogo de catarinense. Esse é o recado. Não foi a primeira vez, claro.
Criciúma e Chapecoense foram ignorados quando jogaram a primeira fase da
Copa do Brasil. Quantas e quantas vezes Avaí, Tigre e Figueirense
tiveram seus jogos transmitidos apenas para suas regiões de origem, seja
na Série A, B ou Copa do Brasil? E a rodada decisiva do estadual que
rolava enquanto a RBS passava jogo do Botafogo (ou Fluminense, sei lá, é
tudo igual) faz duas semanas? Ah, vá…
Não esqueço também a noite em que estava em Canoinhas e não consegui
assistir a um jogo entre Avaí e Ypiranga (RS) pela Copa BR, transmitido
apenas para Florianópolis. Mas como eu, de Canoinhas, vou torcer pro
Avaí, um time catarinense, como a RBS diz que eu tenho que fazer, se
aqui a própria RBS só passa Flamengo? Alguma coisa está fora da ordem
(VELOSO, 1991), não?
Quando a RBS faz campanha “Crack, nem pensar”, chovem pautas de crack a toda hora, em todos os cantos. Eu, que conheço uns 10 alcoólatras para cada viciado em em crack, começo a achar que o crack mata
mais que o álcool (Lei Seca, por que existes? Devia ser Lei
Anti-Latinha Cortada) e que nenhum problema na sociedade pode ser maior
que o consumo de crack. Mais: os viciados nessa droga
poderosíssima devem ser muito mais numerosos que os já citados
alcoólatras, os fumantes, os maconheiros e os cheiradores (aliás,
campanha “Cocaína, nem pensar”, nunca vi. Por que será?).
Por outro lado, a RBS faz campanha para que eu torça para times
catarinenses, mas não passa jogo de time catarinense. É uma campanha
institucional ou não é? Se é, desconfio que a empresa de comunicação não
está fazendo isso direito. ”Ah, mas eles visam à audiência, por isso
passam jogo de RJ-SP”, dirão. OK, muito justo, mas então não venha me
tirar pra otário (e a ti também) com campanha fake, porque isso, eu, nem tu, somos.
Mas sabem o que mais me admira mesmo? É os clubes se sujeitarem a esses caras por uns merréis
que mal pagam a folha salarial. O Avaí, o Figueirense, o Criciúma,
times de torcida, de Séries A e B, ganham menos da RBS que o Ypiranga de
Erechim, como todo respeito, um clube sem torcida (que me desculpem os
poucos fiéis, mas o clube existe para jogar contra a dupla Gre-Nal e
só), sem divisão e rebaixado para a segundona do Campeonato Gaúcho. E
todo ano estão lá, Avaí, Figueirense, Criciúma, rastejando, pedindo pelo
amor de Deus que a RBS transmita o estadual (remember 2009).
Um clube sozinho pouco pode fazer. Logo sofreria represálias (jogos que não seriam transmitidos, ou transmissões sem closes na
camisa, essas coisas que, sim, acontecem) e, isso, claro, não agradaria
aos patrocinadores desse clube. Mas, pombas, 10 clubes unidos podem
cobrar, podem exigir. Se não quer assim, tem outra TV que quer (a
Record, no caso). Sem clubes, não tem campeonato. A Federação vai fazer o
quê? Um campeonato de árbitros?
E dá-lhe botar jogo às 22h, e dá-lhe gravar entrevista com a caraça do jogador/treinador em primeiro plano pra não mostrar os patrocinadores, e dá-lhe jogo de Curintcha e Framengo transmitido pra Santa Catarina, e dá-lhe cota ridícula de televisionamento, e dá-lhe, mas dá-lhe muita, hipocrisia…
* Felipe F.B. Silva é conselheiro do Avaí Futebol Clube e proprietário do blog Solta o Leão!





Não podemos esquecer que o atual presidente da associação de clube é o Zunino.
Salvo engano, ele tb estava na presidência quando o campeonato voltou para a RBS (2009-2010), não?
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