quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tabus, by Felipe Matos

Torcedores do Palmeiras protestam contra uma possível contratação de Richarlyson.

Esta semana me surpreendi com uma declaração no Twitter de um conhecido empresário de futebol, que em tempos passados já atuou no Avaí e atualmente mantém vínculos com o mercado catarinense, dizendo que iria cancelar a sua assinatura de uma revista semanal por ela estampar em sua capa  a cantora Daniela Mercury com sua companheira, a jornalista Malu Verçosa.

Antes de ser questionado por mim se era homofóbico, ele declarou que era preciso respeitar um pretenso direito das pessoas não serem obrigadas a assistirem a dois gays se beijando, referindo-se a um rapaz agredido numa boate em Balneário Camboriú.

A homofobia, no futebol, não é nenhuma novidade, assim como em outros meios da sociedade. Recentemente o jovem Robbie Roger, promissor meia da Seleção dos Estados Unidos, anunciou a sua aposentadoria dos gramados porque não queria mais esconder o que chamou de seu “segredo”: é homossexual. 

No Brasil, o caso mais conhecido é do volante Richarlyson, vítima de insinuações de um ex-cartola e que teve que vir a público dizer, quando jogava no São Paulo, que não era homossexual. Mesmo assim, virou alvo de chacotas de torcedores adversários e do ódio de parte da própria torcida são-paulina, que o queria longe do Morumbi e não cantava seu nome nas arquibancadas.

Quando, em julho de 2012, escrevi aqui no blog tudo o que eu gostaria que "meu Avaí" fosse, eu incluí "ver além da sua área", ser engajado em causas sociais e atitudes politicas, que defina princípios, os defenda e utilize a dimensão do futebol para popularizá-los. Não estava me referindo apenas a campanhas muito importantes como doação de sangue, contra coqueluche, a favor do teste do pezinho ou a campanha contra a corrupção. 

São ótimas iniciativas e que merecem ser incluídas nas ações do clube, mas quem não é a favor da doação de sangue? Quem levanta a voz contra a ajuda humanitária aos desabrigados do Japão? Qual desconforto elas provocam no status quo? Quais novas reflexões incitam? Qual revolução provoca?

Na época, citei o caso do FC St. Pauli, clube que ganhou fama por levar a política e o engajamento ao futebol, denominando-se anti-homofóbico, antifascista e antirracista, além de apoiar outras causas igualmente tratadas como tabu no futebol. Não disputou a final da Champions League, mas conquista, diariamente, algo mais importante...

Por que não podemos ter como ídolo um jogador negro, pobre e homossexual, que nunca foi chegado a grandes lances de habilidade, mas enquanto jogou foi uma das maiores personificações da raça avaiana, como Binha, esquecido e ignorado, embora tantas vezes tenha dado o sangue pelo Avaí em campo e tenha representado tudo o que a torcida mais valoriza naqueles que vestem a nossa camisa, a raça, a determinação, o respeito ao clube e seus torcedores?

A seguir, um belo texto de Daniel Cassol, do site Impedimento:

Este texto não é sobre a invencibilidade do Galo na Libertadores.

Quem aí está disposto a discutir a sério a homofobia no futebol brasileiro? A pergunta não é dirigida a quem ainda não conseguiu se desvincilhar do preconceito, muito menos a quem usa o discurso de ódio como objetivo de vida ou plataforma política.

A pergunta é para quem acha que a homofobia no futebol brasileiro precisa ser discutida e combatida. Estamos dispostos a começar?

Não parece fácil e o temor pelas reações contrárias talvez cale muita gente. A Coligay, torcida organizada que surgiu no final dos anos 70 nas arquibancadas do estádio Olímpico, deve ter sido mais bem compreendida na época do que atualmente, quando só é lembrada para reforçar o preconceito disfarçado de rivalidade. Se alguém pensa que a Coligay foi uma das coisas mais sensacionais que aconteceram no futebol gaúcho, diz isso apenas nos pequenos círculos de amizade.

Mas será que é tão difícil falar abertamente do tema?

537436_260186330785196_710954041_nÉ muito cedo para mensurar a reação dos torcedores mineiros à página “Galo Queer”, mas já se pode responder à pergunta acima. É relativamente simples começar.

Uma torcedora do Atlético Mineiro voltou ao Brasil depois de um tempo estudando fora – nestes estudos, teve a oportunidade de pesquisar e discutir sobre a questão da homofobia. Conversando com amigos em Belo Horizonte, achou que seria interessante criar uma página no Facebook para dizer somos Galo e defendemos a inclusão.

A página foi criada na terça-feira (9), “descoberta” pelas redes sociais na quarta e, na manhã desta quinta, enquanto este texto era escrito, pulou de pouco mais de 1.300 seguidores para 1.670. A discussão por lá era se o grupo mantinha o escudo do Galo com as cores do movimento gay ou se o melhor era manter o alvinegro original.

A reação assustou a criadora, que prefere não se manifestar. Quem passou algumas  informações sobre a página foi o atleticano Idelber Avelar, professor da Tulane University, de Nova Orleans, nos Estados Unidos. Bastante conhecido nas redes sociais, ele decidiu colaborar com textos para a página.

Não poderia ser diferente, houve reações raivosas dos dois lados da rivalidade local. Mas isso é o que menos importa no momento. Importa mais a iniciativa e o apoio que ela recebeu.

Em janeiro de 2012, uma torcida organizada do Palmeiras exibiu uma faixa escrita “a homofobia veste verde”, como protesto (sic) contra uma possível contratação do volante Richarlyson, do próprio Atlético Mineiro. Um grupo de torcedores reagiu com textos afirmando que a tradição do Palmeiras era de tolerância e inclusão.

A “Galo Queer” é só uma página no Facebook, pode perder força ali na frente, mas já ajuda a desequilibrar o duelo de preconceitos em Minas Gerais, pegando os torcedores raivosos no contrapé. Afinal de contas, o “costume” são ofensas racistas de cruzeirenses contra atleticanos e ofensas homofóbicas no sentido contrário.

Há quem julgue que tudo isso é uma grande bobagem, que as piadinhas e provocações fazem parte do futebol e que a ditadura do politicamente correto ameaça a diversão. É o caso de contrapor esta ideia ao fato de que, só no ano passado, 338 pessoas foram mortas pelo fato de serem “queers” (dados recolhidos pelo Grupo Gay da Bahia). E que já estamos bem crescidos para conviver com as diferenças e não julgar – muito menos perseguir – ninguém por isso.

Estimular essa discussão no meio do futebol é importante, mas é preciso que mais pessoas estejam dispostas ao pontapé inicial. A página “Galo Queer”, com seus limites e as reações positivas e negativas que gerou, é um exemplo claro de que há muito o que se conversar. Como dizem os boleiros nas entrevistas antes de uma partida, tabu existe para ser quebrado.

Venceremos,
Daniel Cassol

* Felipe "Melo" Matos é associado do Avaí Futebol Clube e proprietário do blog Memória Avaiana

2 Comentários:

Alexandre Carlos Aguiar disse...

Eu apóio a causa. Sou contra o preconceito e a agressividade na sociedade e trazer o futebol para essa discussão pode fazer amadurecer muito marmanjo barbado.

Felipe Matos disse...

Alexandre, em tempos de Feliciano, torna-se mais importante o engajamento dos meios informais de educação na construção do "espírito republicano", no sentido em que podemos até discordar de determinados modos de vida, mas não podemos negar direitos a estas pessoas de viverem plenamente.

Por sua dimensão popular, o futebol poderia atuar mais como um meio informal de educação, já que há todo um discurso de ódio reproduzido em seu meio, especialmente no que tange ao racismo e a homofobia.

Os clubes de futebol poderiam se engajar nestas causas culturais e politicas de forma mais clara e aberta, sem receios. Aliás, poderiam? Seriam compreendidos por seus próprios torcedores?

Infelizmente tenho poucas esperanças que isto aconteça, em qualquer clube.

abs

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