PARA CAROLINA BRÜGMANN, ESTEJA ONDE ESTIVER, by Roberto Costa
Fiz meu curso primário no colégio Lauro Müller, no centro da cidade, e já no primeiro ano, mesmo sendo criança, caí de amores. Caí, sim, de um amor impossível e mais comum do que se possa pensar. Foi à primeira vista, o que descobri mais tarde ser coisa de meu fado, de meu recôndito DNA, talvez. Chamava-se Carolina Brügmann, professora de profissão e, calculo, perto de um metro e oitenta de altura e beleza.
Naquele colégio Lauro Müller, da minha infância, quando o sinal de entrada soava, todos tinham de interromper o que faziam, - o jogo de gude, o vira-figurinha, um papo agradável sobre Rock Lane, ou futebol, quem sabe - e correrem ao local predeterminado no pátio, e perfilarem-se em filas duplas, os menores à frente, para ouvir a palestra da severa diretora, dona Glória, em geral sobre disciplina, higiene, ou moral.
Acontece que eu, já literalmente obcecado, tinha sempre os olhos platonicamente fixos e perdidos em Carolina Brügmann, com seu porte altivo, diante da turma do quarto ano. Pouco me ligava nas lições da diretora. Eu gostava mesmo era quando seu discurso se alongava, o que significava mais tempo para curtir, ainda que à distância, a imagem da minha secreta paixão.
Então um dia cheguei ao quarto ano e não dependi mais dos breves momentos discursivos da diretora. Por direito eu adquirira o conforto da proximidade, por um ano letivo inteiro Carolina foi minha professora, por um ano inteiro habitou o foco dos meus olhos, ditou o ritmo do meu coração.
Hoje não posso dizer com certeza se obteve perceber em mim, ao longo de todos os meus pulsares, por força da perspicácia profissional, algum detalhe que fizesse transparecer os meus enlevos em relação à sua pessoa. Mas tudo leva a crer que sim, e que a isso, com sua experiência profissional e sensibilidade, dispensou o tratamento adequado: a preservação da distância e o alheamento simulado de quem insinua que nada percebeu, estratégia capaz de esfriar com o tempo, ao natural e sem traumas para o aluno, a paixão impossível que o acometia.
Certamente eu não fui o primeiro, nem o último. É provável que ela tenha sido obrigada a trabalhar muitas outras cabecinhas ingênuas, adoecidas do mesmo doce mal. Enfim, um pequeno desconforto entre as vantagens todas de ser uma linda mulher.
E para comprovar, um dia, eu, já passado dos quarenta, encontrei na rua com sua irmã, também mulher de especial beleza, e perguntei: Como vai a professora Carolina? E ela: Vai bem, mas por quê queres saber? É que fui seu aluno no primário, respondi. E ela, sem conter o riso e impunemente acertando na mosca: Ah, já sei, és mais um que se apaixonou.
Senti-me sem graça, como alguém cuja máscara caiu no meio do salão, mas consegui dizer, meio desajeitado: É verdade, não posso negar. Como subterfúgio, peguei carona no riso dela, que seguiu seu caminho e, voltando-se, riu de novo, simpaticamente, da minha cara risonha e perplexa.
* Roberto Costa é associado do Avaí FC. Foto acima: Cameron Diaz, reprodução do filme "Professora Sem Classe"
Naquele colégio Lauro Müller, da minha infância, quando o sinal de entrada soava, todos tinham de interromper o que faziam, - o jogo de gude, o vira-figurinha, um papo agradável sobre Rock Lane, ou futebol, quem sabe - e correrem ao local predeterminado no pátio, e perfilarem-se em filas duplas, os menores à frente, para ouvir a palestra da severa diretora, dona Glória, em geral sobre disciplina, higiene, ou moral.
Acontece que eu, já literalmente obcecado, tinha sempre os olhos platonicamente fixos e perdidos em Carolina Brügmann, com seu porte altivo, diante da turma do quarto ano. Pouco me ligava nas lições da diretora. Eu gostava mesmo era quando seu discurso se alongava, o que significava mais tempo para curtir, ainda que à distância, a imagem da minha secreta paixão.
Então um dia cheguei ao quarto ano e não dependi mais dos breves momentos discursivos da diretora. Por direito eu adquirira o conforto da proximidade, por um ano letivo inteiro Carolina foi minha professora, por um ano inteiro habitou o foco dos meus olhos, ditou o ritmo do meu coração.
Hoje não posso dizer com certeza se obteve perceber em mim, ao longo de todos os meus pulsares, por força da perspicácia profissional, algum detalhe que fizesse transparecer os meus enlevos em relação à sua pessoa. Mas tudo leva a crer que sim, e que a isso, com sua experiência profissional e sensibilidade, dispensou o tratamento adequado: a preservação da distância e o alheamento simulado de quem insinua que nada percebeu, estratégia capaz de esfriar com o tempo, ao natural e sem traumas para o aluno, a paixão impossível que o acometia.
Certamente eu não fui o primeiro, nem o último. É provável que ela tenha sido obrigada a trabalhar muitas outras cabecinhas ingênuas, adoecidas do mesmo doce mal. Enfim, um pequeno desconforto entre as vantagens todas de ser uma linda mulher.
E para comprovar, um dia, eu, já passado dos quarenta, encontrei na rua com sua irmã, também mulher de especial beleza, e perguntei: Como vai a professora Carolina? E ela: Vai bem, mas por quê queres saber? É que fui seu aluno no primário, respondi. E ela, sem conter o riso e impunemente acertando na mosca: Ah, já sei, és mais um que se apaixonou.
Senti-me sem graça, como alguém cuja máscara caiu no meio do salão, mas consegui dizer, meio desajeitado: É verdade, não posso negar. Como subterfúgio, peguei carona no riso dela, que seguiu seu caminho e, voltando-se, riu de novo, simpaticamente, da minha cara risonha e perplexa.
* Roberto Costa é associado do Avaí FC. Foto acima: Cameron Diaz, reprodução do filme "Professora Sem Classe"






Belíssimo texto. Próprio dos irmãos e irmã (pena que doladodelá) Costa. Parabéns! Maria Marlene
Maria Marlene,
Indubitavelmente conheces o potencial da família...
Abraço!
MARIA MARLENE, Muito grato pelo elogio, é sempre recompensador e até inspirador descobrir que apreciam as coisas que se faz.Feliz 2015.
Roberto Costa
Roberto Costa,
Estás ampliando o fã clube...
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