sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A FACE CINZA DA BOLA, by Roberto Costa

Concluído meu curso de direito em 68, rumei em 69 para o Paraná, com o diploma, a cara e a coragem, numa aventura profissional. Fixei-me na rica região do café, numa cidade pequena, uns poucos quilômetros acima de Maringá. Na ilha eu deixara com tristeza o mar, alguns amigos, os sentimentos, a noiva, o Avaí.

Na minha chegada ao destino, observei que a coisa mais parecida com o mar eram as imensas lavouras de café, que ondeavam, ora subindo, ora descendo pelas colinas. As pequenas cidades eram ilhas perdidas naquele mar. Com quem conversar? Que conversas ter? Foi a pergunta que me fiz enquanto observava as pessoas que passavam, com sua rude naturalidade. 

Aluguei quarto no único hotel da cidade, doze compartimentos de madeira, seis em cada lado, separados por um corredor, cada qual com uma pequena basculante para arejar. Um banheiro aos fundos, numa dependência separada do corpo do hotel. Não tinha planos de morrer de angústia e tédio, então fui à Maringá, comprei livros, coletâneas de contos, romances.

Ocorreu-me que na cidade pessoas deviam jogar futebol. Perguntei no hotel, disseram: Ah, no estádio jogam, sábado à tarde. E me deixam jogar? Deixam, é pelada, sempre tem uma vaga. 

Com efeito, no sábado, chuteira na mão, me apresentei no precário estádio, e fui recebido com simpatia. Escolhi jogar de atacante e concordaram, sem objeções. Com poucos minutos de jogo percebi que alguém se destacava com um futebol de muita qualidade em relação a todos os demais. O sujeito possuía um biotipo largo, um porte que lembrava o Gerson, da Seleção. Havia de ter entre 45 e 50 anos de idade. Um bigode denso e escuro e um dente de ouro frontal. Fazia passes curtos e lançamentos à distância com perfeição, ocupando a posição de cabeça de área. Num lançamento forte e alto em sua direção, ele ergueu-se no ar e com a flexibilidade que a idade ainda não lhe tirara de todo, fez a bola colar em seu peito, com a segurança e a graça dos verdadeiros craques, coisa bonita de ver.

Era argentino. Encerrado o jogo dirigi-me a ele, dizendo: Você já jogou profissional. Sua resposta veio em portunhol: Si, Estudiantes, Nacional de Montevideo, Colo Colo de Chile, en Mexico tambien, enfrentê Botafogo de Garrincha, de Nilton Santos. Tengo fotos, jornales...

Depois fiquei sabendo, era sapateiro na cidade, consertava sapatos. Possivelmente não soubera administrar com sabedoria o dinheiro dos bons tempos. Cheguei a vê-lo batendo solas contra uma placa de ferro apoiada sobre sua coxa direita; não sei como aguentava o tranco.

* Roberto Costa é associado do Avaí FC

2 Comentários:

Anônimo disse...

Querria te falar em outro post, parei de ler pela possibilidade de enchente em Itajaí, meu bairro é o mais doce porém um dos mais suscetíveis as águas que vem dos vales. Mas sei que em post atrasados ficaria difícil. Minha visão do porquê times como o Figueirense ou Flamengo jogam com toda a voracidade mesmo com salários atrasados se deve não pela competência da diretoria, mas pela ausência de eco da falta do clube com seus jogadores...
Não se vê, nem na Vênus Platinada nem na Rede Zelotes, qualquer possibilidade dos problemas internos vazarem a público! Pois são times apoiados pela "imprensa oficial" portanto nada de mal passa...
Já qualquer rusga nos timas não eleitos é uma festa! Vai jogar de corpo mole no Flamengo pra ver a grobo praticamente chamar a torcida pra batee neles. Vai fazer corpo mole no figay pra ver a RBS matando os caras a pau!

OBS: A quantidade de carrinho que o figay deu no framengo foi descomunal: ninguém amarelado. Pois o Avaí com faltas de jogo contra o Palmeiras teve "trocentos" amarelados no 1º tempo, vide Adriano e Antonio Carlos. Imagina se joga com a "raça" do co-irmão?....


Adriano Itavaí

André Tarnowsky Filho disse...

Adriano Itavaí,

Primeiramente, espero que esteja tudo dentro da normalidade na tua cidade e teu bairro.

Sim, tuas colocações são pertinentes, e esse exemplo de cartões amarelos para o Leão, salientei aqui várias vezes, em sua imensa maioria são por reclamações...

Não lembro de UMA falta violenta feita por nossos zagueiros...

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