MENINOS BURGUESES, MENINAS OPERÁRIAS, by Roberto Costa
A riqueza é comum acomodar, aburguesar. Mas isso não justificava que
jogadores chegados a um patamar salarial elevado e já prontos para o
milionário futebol europeu, olhassem com menor apreço a Seleção Olímpica
de seu País. Há todo um charme, um fascínio em jogar nos times ricos da
Espanha. Barcelona, (não o do Estreito) Real, Atlético, e também nos
times da França, da Inglaterra, ou da Alemanha, e isso cativa.
Pouco há de importar se elas
não ganharem o ouro, a luta é renhida e futebol oferece surpresas. Mas
já conquistaram algo muito precioso, o coração do torcedor.
* Roberto Costa é associado do Avaí FC. Foto acima: Mariana Bazo/Reuters
Os
dois primeiros jogos da Seleção Masculina Olímpica deram muito o que
pensar. Não atuavam, certos jogadores, com a habitual aplicação com que
se apresentam vestindo as camisas milionárias de seus clubes em
campeonatos europeus. O próprio Neymar, a cada vez que recebia a bola
contentava-se apenas em rascunhar uma jogada, longe de um desenho com
apuro técnico, vibrante. Poucos lances fez de alma presente. No popular,
a turma esnobando, pouco se importando com coisas do tipo "espírito
olímpico". Não que fizessem por maldade, talvez por descuido,
imaturidade, ou falta de lembrança.
Eu diria
que a visita de Tite aos vestiários da rapaziada não foi algo gratuito,
mas uma sacada de alguém, talvez da própria CBF, quem sabe do próprio
Tite, que deve ter percebido inclusive a corda frouxa e providenciou a
intervenção necessária. Os meninos precisavam ouvir certas coisas,
assentarem os pés no chão, saberem de forma bem clara a razão de estarem
lá. E, com efeito, depois de Tite a coisa mudou para melhor, muito
embora a Dinamarca tenha sido o mais fraco adversário dos três
inicialmente enfrentados.
Já as meninas,
daquela outra Seleção, que vem entusiasmando o entristecido torcedor
brasileiro, algumas ainda em estágio de amadoras, ganhando muito aquém
dos vultosos salários dos masculinos, ou seja, com espírito mais
operário, desde o início se comportaram de forma séria, guerreira, os
corações quase saindo pelas bocas, a briga pela bola levada às últimas
consequências.
O que correram aquelas meninas,
na sexta-feira, desde o início, contra a Austrália, me fez pensar que
sucumbiriam na segunda metade do segundo tempo, que perderiam o jogo,
caindo exangues diante das robustas adversárias. Mas resistiram,
inclusive ao tempo da prorrogação, Marta e Formiga, mais antigas,
extenuadas, dando exemplo de luta. O torcedor apaixonou-se, porque
torcedor não é bobo e soube distinguir desde o início onde havia alma e
onde não havia.
* Roberto Costa é associado do Avaí FC. Foto acima: Mariana Bazo/Reuters






Muito oportuna a foto, diz bem com o texto. - RC
RC,
Obrigado. Desse tipo de comportamento não vemos na masculina, que insiste em blindar e enaltecer um ídolo de barro...
Postar um comentário
A MODERAÇÃO DE COMENTÁRIOS FOI ATIVADA. Os comentários passam por um sistema de moderação, ou seja, eles são lidos, antes de serem publicados pelo autor do Blog.