sábado, 13 de agosto de 2016

MENINOS BURGUESES, MENINAS OPERÁRIAS, by Roberto Costa

A riqueza é comum acomodar, aburguesar. Mas isso não justificava que jogadores chegados a um patamar salarial elevado e já prontos para o milionário futebol europeu, olhassem com menor apreço a Seleção Olímpica de seu País. Há todo um charme, um fascínio em jogar nos times ricos da Espanha. Barcelona, (não o do Estreito) Real, Atlético, e também nos times da França, da Inglaterra, ou da Alemanha, e isso cativa.

Os dois primeiros jogos da Seleção Masculina Olímpica deram muito o que pensar. Não atuavam, certos jogadores, com a habitual aplicação com que se apresentam vestindo as camisas milionárias de seus clubes em campeonatos europeus. O próprio Neymar, a cada vez que recebia a bola contentava-se apenas em rascunhar uma jogada, longe de um desenho com apuro técnico, vibrante. Poucos lances fez de alma presente. No popular, a turma esnobando, pouco se importando com coisas do tipo "espírito olímpico". Não que fizessem por maldade, talvez por descuido, imaturidade, ou falta de lembrança.

Eu diria que a visita de Tite aos vestiários da rapaziada não foi algo gratuito, mas uma sacada de alguém, talvez da própria CBF, quem sabe do próprio Tite, que deve ter percebido inclusive a corda frouxa e providenciou a intervenção necessária. Os meninos precisavam ouvir certas coisas, assentarem os pés no chão, saberem de forma bem clara a razão de estarem lá. E, com efeito, depois de Tite a coisa mudou para melhor, muito embora a Dinamarca tenha sido o mais fraco adversário dos três inicialmente enfrentados.

Já as meninas, daquela outra Seleção, que vem entusiasmando o entristecido torcedor brasileiro, algumas ainda em estágio de amadoras, ganhando muito aquém dos vultosos salários dos masculinos, ou seja, com espírito mais operário, desde o início se comportaram de forma séria, guerreira, os corações quase saindo pelas bocas, a briga pela bola levada às últimas consequências. 

O que correram aquelas meninas, na sexta-feira, desde o início, contra a Austrália, me fez pensar que sucumbiriam na segunda metade do segundo tempo, que perderiam o jogo, caindo exangues diante das robustas adversárias. Mas resistiram, inclusive ao tempo da prorrogação, Marta e Formiga, mais antigas, extenuadas, dando exemplo de luta. O torcedor apaixonou-se, porque torcedor não é bobo e soube distinguir desde o início onde havia alma e onde não havia. 

Pouco há de importar se elas não ganharem o ouro, a luta é renhida e futebol oferece surpresas. Mas já conquistaram algo muito precioso, o coração do torcedor.

* Roberto Costa é associado do Avaí FC. Foto acima: Mariana Bazo/Reuters

2 Comentários:

Roberto disse...

Muito oportuna a foto, diz bem com o texto. - RC

André Tarnowsky Filho disse...

RC,

Obrigado. Desse tipo de comportamento não vemos na masculina, que insiste em blindar e enaltecer um ídolo de barro...

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