O PLACAR ELETRÔNICO, by RC
Era uma vez
um Placar Eletrônico, que fora construído com muito carinho, por uma
agremiação. Uma vez pronto, pintaram-no com a cor das trevas
e instalaram-no num local elevado do estádio, razão pela qual ele adquiriu
um ar imponente, detalhe que fez aumentar o orgulho do populacho
afinado com a dita agremiação.
Entretanto,
nem tudo eram flores para o pobre engenho, ele tinha problemas
insuspeitados, com os quais sofria e remoía silenciosamente,
haja vista que não tinha como queixar-se deles aos técnicos que o haviam
concebido. As limitações eram o seu fraco. Invejava principalmente os robôs,
que - a contrário dele, um equipamento estático - podiam
locomover-se.
Mas, com
muito esforço, conseguira identificar o populacho que o prestigiava,
aquela turba agitada que reverenciava nas roupas a cor preta, sua própria cor.
Passou então a invejá-los, a sonhar com um dia em que
pudesse sambar no meio deles, pular, usar camisa pornográfica, acender
sinalizador e ter a mídia alugada a seus pés, abafando suas mazelas. Mas
isso era apenas sonho, sonho inalcançável, ele não se deixava
iludir, sabia-se definitivamente um artefato estático.
Aos poucos,
porém, foi se resignando e até encontrando alegrias pelas meras atenções
que recebia em dias de jogo e pelo simples fato de sentir-se
útil. Podia-se dizer que era quase feliz.
Eis que,
numa semana de outono, a desusada movimentação no estádio disse-lhe que
algo especial estava por acontecer. Colocou em estado de alerta todos os seus
circuitos eletrônicos, todos os seus chips, e conseguiu captar uma palavra que,
de tão pronunciada, pareceu-lhe muito importante: "Clássico". Forçou
mais a atenção e captou o total da mensagem importante: "Domingo é dia de
clássico". Deixou-se contagiar pela emoção reinante e, tocado de
ansiedade, passou a torcer para que o domingo chegasse logo, acreditando que
nesse dia tão especial, O DIA DO SEU PRIMEIRO CLÁSSICO, pudesse atingir um
estado de plena felicidade.
Então, o
clássico chegou e ele encheu-se de júbilo. A sua turba ocupava quase todo o
estádio, o que confirmava a suspeita de que estava diante de um acontecimento
realmente especial. Sentiu, no visor, acenderem-se o nome de sua
agremiação e o do adversário e sabia que ali seria registrado cada gol
assinalado no jogo. Alguma grande alegria estava perto de acontecer, ele
acreditava. Mas os minutos foram passando e nada de gol acontecer, até que aos
32 sai o primeiro, e um comando elétrico irreprimível registra no
seu próprio visor o número um, cruelmente ao lado do nome do adversário.
Ele procura desesperadamente entre os recursos de seus chips uma forma de
apagar aquele incômodo dígito, ou de repassá-lo para sua agremiação, mas nada
encontra. Sonha com uma lagartixa na tomada, tenta ele próprio provocar um
curto circuito, um arakiri eletrônico, e nada. Do outro lado a turba zebrada,
enlouquecida e babando, quer quebrar tudo.
Como se não
bastasse, minutos depois, um novo gol e o impulso eletrônico, de novo, sem que
ele possa impedir, registra o número dois ao lado do nome do adversário. Seu
visor se enche de lágrimas e ele diz baixinho, com seus botões: - É triste
admitir, mas O PRIMEIRO CLÁSSICO, A GENTE NUNCA ESQUECE.
* Roberto Costa, o "RC", é associado do Avaí FC. Mini-fábula escrita em 11/04/2008, motivado pela realização do primeiro clássico com placar eletrônico, recém inaugurado, no nosso salão, o clássico do CRÉU! Placar eletrônico pé frio!






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