segunda-feira, 1 de junho de 2026

QUEM CONSTRUIU O CLUBE? by Wesley S. Cordova

Existe uma frase que aparece toda vez que se fala sobre SAF que o futebol mudou e se modernizou. Por um lado, isso é verdade, porque o futebol mudou e o dinheiro aumentou, os interesses econômicos cresceram, os patrocínios ficaram maiores e o mercado passou a ocupar um espaço cada vez mais importante dentro do esporte. Porém, existe uma pergunta que quase nunca é feita em meio a toda essa conversa: se o futebol mudou, será que os clubes precisam deixar de ser aquilo que sempre foram?

 

O debate sobre SAF costuma ser apresentado de uma forma muito simples. De um lado estaria a modernidade, o profissionalismo e o investimento e do outro, o atraso, o amadorismo e a resistência às mudanças, mas a realidade é muito mais complexa do que essa divisão artificial e restrita a dois segmentos.

 

Ninguém é contra a gestão profissional, a responsabilidade financeira e planejamento. O que muita gente questiona é outra coisa que demonstra um único caminho, por que a única solução apresentada para os problemas dos clubes é entregar seu controle ao mercado?

 

Também é preciso falar sobre algo que parece óbvio, mas muitas vezes é deixado de lado, a principal ação a ser feita agora é trazer a torcida de volta para o estádio. Deveríamos refletir, ao invés de pensar apenas em novos investidores, por que não discutir formas de tornar o futebol mais acessível para quem sempre sustentou o clube? Ingressos com valores mais compatíveis com a realidade da população e do clube, planos de sócio mais atrativos, ações voltadas para famílias, estudantes e moradores da região, além de uma relação mais próxima entre clube e comunidade.

 

Muitos dirigentes falam em aumentar receitas, mas esquecem que estádio cheio também gera receita, esquecem que uma torcida engajada consome, participa, se associa e fortalece a instituição. O torcedor não pode ser visto apenas como alguém que paga a conta, ele precisa ser tratado como parte fundamental do projeto de futuro do clube.

 

Afinal, é difícil falar em pertencimento quando grande parte da população já não consegue frequentar o estádio com regularidade. Um clube forte não se constrói apenas com investimento financeiro, também se constrói com arquibancadas cheias, identidade popular e uma torcida que se sente parte da instituição, afinal antes de qualquer discussão sobre investidores, ações ou modelos empresariais, vale lembrar de uma coisa básica. Os clubes brasileiros não nasceram como negócios, eles não foram criados por fundos de investimento e muito menos surgiram a partir de reuniões de executivos. 

 

Não foram construídos para gerar lucro, foram construídos por pessoas, por trabalhadores, por comunidades inteiras, por torcedores que mantiveram viva uma paixão durante décadas. Foram construídos por gente que lotou arquibancadas em momentos de glória e também nos momentos de sofrimento. Gente que comprou ingresso quando o time estava ganhando e quando estava perdendo, pessoas que transmitiram essa paixão para filhos, netos e futuras gerações.

 

E é justamente por isso que um clube não pode ser visto apenas como uma empresa, porque uma empresa pode trocar de dono sem grandes consequências emocionais e um clube não. Uma empresa pode mudar sua identidade visual para aumentar lucros, por outro lado um clube carrega símbolos que fazem parte da memória de milhares de pessoas.

 

Uma empresa existe para gerar retorno financeiro, já o clube existe porque existe uma comunidade que se reconhece nele.

 

Por isso causa preocupação quando começam a tratar o torcedor apenas como consumidor. Porque o consumidor compra um produto e o torcedor constrói uma história. O consumidor troca de marca quando encontra algo melhor e na hora do aperto vai ser o torcedor que continuará ali mesmo quando tudo dá errado. É essa diferença que faz do futebol algo especial.

 

O problema é que, aos poucos, tentam convencer as pessoas de que essa relação de pertencimento vale menos do que uma planilha financeira, tentam transformar identidade em detalhe, tradição em obstáculo e participação popular em problema.

 

Primeiro vem o discurso da crise e depois vem o medo de ficar para trás, medo de não competir, medo de desaparecer e quando o medo já tomou conta da discussão, surge a solução pronta, apresentada como inevitável.

 

Mas toda vez que alguém diz que existe apenas um caminho possível, vale a pena desconfiar, porque a história mostra que as melhores decisões nunca foram tomadas sob pressão ou desespero. Foram tomadas através do debate, da participação e da capacidade de pensar o futuro sem destruir aquilo que foi construído no passado.

 

É claro que os clubes precisam se modernizar, que precisam melhorar sua gestão e que precisam ser sustentáveis financeiramente. Mas nada disso deveria significar abrir mão da sua identidade ou afastar justamente aqueles que sempre sustentaram a instituição.

 

O futebol não é uma fábrica, não é uma bolsa de valores e não é apenas um negócio. O futebol é uma das últimas expressões coletivas capazes de reunir milhares de pessoas em torno de um sentimento comum e quando essa dimensão é ignorada, algo muito importante se perde.

 

Talvez por isso a pergunta mais importante dessa discussão seja também a mais simples.

 

Quem construiu o clube? Foi o mercado? Foi algum fundo de investimento? Foi algum empresário? Ou foram milhares de torcedores que passaram a vida inteira carregando essa camisa?

 

Se o clube nasceu do povo, por que o povo deve abrir mão de decidir seu futuro? Se a torcida é chamada para pagar a conta nos momentos difíceis, por que não pode ser chamada para decidir nos momentos importantes?

 

E se um dia chegar o momento em que o clube tiver dinheiro, estrutura, patrocínio e investidores, mas já não pertencer mais aos seus torcedores, então vale uma última pergunta do que foi salvo, porque um clube sem sua gente pode continuar existindo, mas deixa de ser aquilo que o tornou grande.

 

Dinheiro recupera caixa, vitórias recuperam autoestima. Contudo, quando um clube perde sua identidade, quem devolve?


* Wesley Souza Cordova é conselheiro do Avaí F.C.

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