QUEM CONSTRUIU O CLUBE? by Wesley S. Cordova
Existe uma
frase que aparece toda vez que se fala sobre SAF que o futebol mudou e se
modernizou. Por um lado, isso é verdade, porque o futebol mudou e o dinheiro
aumentou, os interesses econômicos cresceram, os patrocínios ficaram maiores e
o mercado passou a ocupar um espaço cada vez mais importante dentro do esporte.
Porém, existe uma pergunta que quase nunca é feita em meio a toda essa
conversa: se o futebol mudou, será que os clubes precisam deixar de ser aquilo
que sempre foram?
O debate sobre
SAF costuma ser apresentado de uma forma muito simples. De um lado estaria a
modernidade, o profissionalismo e o investimento e do outro, o atraso, o
amadorismo e a resistência às mudanças, mas a realidade é muito mais complexa
do que essa divisão artificial e restrita a dois segmentos.
Ninguém é
contra a gestão profissional, a responsabilidade financeira e planejamento. O
que muita gente questiona é outra coisa que demonstra um único caminho, por que
a única solução apresentada para os problemas dos clubes é entregar seu
controle ao mercado?
Também é
preciso falar sobre algo que parece óbvio, mas muitas vezes é deixado de lado,
a principal ação a ser feita agora é trazer a torcida de volta para o estádio.
Deveríamos refletir, ao invés de pensar apenas em novos investidores, por que
não discutir formas de tornar o futebol mais acessível para quem sempre
sustentou o clube? Ingressos com valores mais compatíveis com a realidade da
população e do clube, planos de sócio mais atrativos, ações voltadas para
famílias, estudantes e moradores da região, além de uma relação mais próxima
entre clube e comunidade.
Muitos
dirigentes falam em aumentar receitas, mas esquecem que estádio cheio também
gera receita, esquecem que uma torcida engajada consome, participa, se associa
e fortalece a instituição. O torcedor não pode ser visto apenas como alguém que
paga a conta, ele precisa ser tratado como parte fundamental do projeto de
futuro do clube.
Afinal, é
difícil falar em pertencimento quando grande parte da população já não consegue
frequentar o estádio com regularidade. Um clube forte não se constrói apenas
com investimento financeiro, também se constrói com arquibancadas cheias,
identidade popular e uma torcida que se sente parte da instituição, afinal
antes de qualquer discussão sobre investidores, ações ou modelos empresariais,
vale lembrar de uma coisa básica. Os clubes brasileiros não nasceram como
negócios, eles não foram criados por fundos de investimento e muito menos
surgiram a partir de reuniões de executivos.
Não foram
construídos para gerar lucro, foram construídos por pessoas, por trabalhadores,
por comunidades inteiras, por torcedores que mantiveram viva uma paixão durante
décadas. Foram construídos por gente que lotou arquibancadas em momentos de
glória e também nos momentos de sofrimento. Gente que comprou ingresso quando o
time estava ganhando e quando estava perdendo, pessoas que transmitiram essa
paixão para filhos, netos e futuras gerações.
E é justamente
por isso que um clube não pode ser visto apenas como uma empresa, porque uma
empresa pode trocar de dono sem grandes consequências emocionais e um clube
não. Uma empresa pode mudar sua identidade visual para aumentar lucros, por
outro lado um clube carrega símbolos que fazem parte da memória de milhares de
pessoas.
Uma empresa
existe para gerar retorno financeiro, já o clube existe porque existe uma
comunidade que se reconhece nele.
Por isso causa
preocupação quando começam a tratar o torcedor apenas como consumidor. Porque o
consumidor compra um produto e o torcedor constrói uma história. O consumidor
troca de marca quando encontra algo melhor e na hora do aperto vai ser o
torcedor que continuará ali mesmo quando tudo dá errado. É essa diferença que
faz do futebol algo especial.
O problema é
que, aos poucos, tentam convencer as pessoas de que essa relação de
pertencimento vale menos do que uma planilha financeira, tentam transformar
identidade em detalhe, tradição em obstáculo e participação popular em
problema.
Primeiro vem o
discurso da crise e depois vem o medo de ficar para trás, medo de não competir,
medo de desaparecer e quando o medo já tomou conta da discussão, surge a
solução pronta, apresentada como inevitável.
Mas toda vez
que alguém diz que existe apenas um caminho possível, vale a pena desconfiar,
porque a história mostra que as melhores decisões nunca foram tomadas sob
pressão ou desespero. Foram tomadas através do debate, da participação e da
capacidade de pensar o futuro sem destruir aquilo que foi construído no
passado.
É claro que os
clubes precisam se modernizar, que precisam melhorar sua gestão e que precisam
ser sustentáveis financeiramente. Mas nada disso deveria significar abrir mão
da sua identidade ou afastar justamente aqueles que sempre sustentaram a
instituição.
O futebol não é
uma fábrica, não é uma bolsa de valores e não é apenas um negócio. O futebol é
uma das últimas expressões coletivas capazes de reunir milhares de pessoas em
torno de um sentimento comum e quando essa dimensão é ignorada, algo muito
importante se perde.
Talvez por isso
a pergunta mais importante dessa discussão seja também a mais simples.
Quem construiu
o clube? Foi o mercado? Foi algum fundo de investimento? Foi algum empresário?
Ou foram milhares de torcedores que passaram a vida inteira carregando essa
camisa?
Se o clube
nasceu do povo, por que o povo deve abrir mão de decidir seu futuro? Se a
torcida é chamada para pagar a conta nos momentos difíceis, por que não pode
ser chamada para decidir nos momentos importantes?
E se um dia
chegar o momento em que o clube tiver dinheiro, estrutura, patrocínio e
investidores, mas já não pertencer mais aos seus torcedores, então vale uma
última pergunta do que foi salvo, porque um clube sem sua gente pode continuar
existindo, mas deixa de ser aquilo que o tornou grande.
Dinheiro
recupera caixa, vitórias recuperam autoestima. Contudo, quando um clube perde
sua identidade, quem devolve?
* Wesley Souza Cordova é conselheiro do Avaí F.C.






Que torcida???
Procura-se...
Postar um comentário
A MODERAÇÃO DE COMENTÁRIOS FOI ATIVADA. Os comentários passam por um sistema de moderação, ou seja, eles são lidos, antes de serem publicados pelo autor do Blog.