domingo, 4 de janeiro de 2015

A REVOLUÇÃO E O MANEQUIM, by Roberto Costa

Antigamente o brasileiro jogava futebol por instinto. É claro que os clubes e a Seleção do País não dispensavam treinador, mas sempre tínhamos a criatividade, o virtuosismo natural dos nossos atletas, que no fim das contas era o que mais resolvia. Dizem as más línguas que Vicente Feola, treinador da vitoriosa seleção de 58 cochilava no banco.  

Os europeus queimavam suas pestanas buscando esquemas capazes de superar nossos atletas, mas qual esquema poderia resistir à volúpia de uma arrancada de Garrincha, driblando e fazendo de bobos os adversários? E Pelé, cujos primeiros passos já prenunciavam um irresistível atleta? E depois tivemos Zico, Falcão, Rivelino, Tostão, Didi, Nilton Santos, etc. Que esquema poderia deter esses artistas da bola? Nenhum. Então os europeus, com seus atletas de cintura dura faziam apenas o que lhes cabia, admirar, invejar e aplaudir nossa arte vencedora, o nosso futebol de exímios malabaristas.
Mas em 76 aconteceu Cláudio Coutinho, a quem deram o comando de nossa Seleção. E Coutinho equivocou-se, inverteu as coisas. Comandava mestres e foi buscar subsídiso em aprendizes, adotou o que a própria Wikipedia chama de a europeização do futebol brasileiro. E ensinou nossos jogadores a falar "over laping" e ensinou-lhes coisas como "ponto futuro", ou seja, introduziu racionalismos naquilo que era puro instinto e quem jogava em rítmo fluente e de samba, passou a precisar de tempo para pensar jogadas.
Como se não bastasse, veio o pior, a famigerada Lei Pelé, que facilitou a exportação de talentos adolescentes, os quais são burilados segundo a cultura do futebol europeu, ou seja, nossos jovens talentos são europeizados, treinados para não improvisar, para serem práticos, objetivos, robotizados, mas raramente desconcertantes. Nossos artistas levados a abdicar da alegria do drible.
Penso que nosso futebol precisa de uma revolução, paradoxalmente na forma de um retorno às origens. Nossos treinadores e formadores de atletas precisam de novo valorizar o talento natural, estimular nos jovens o gosto pelo drible, jogada desconcertante que pode ser considerada um timbre do jogador brasileiro e arma eficaz contra qualquer esquema defensivo.
Mas agora que a CBF parece ter mudado para manter tudo do jeito que estava, retornando com Dunga, quem sabe que idéias novas poderá trazer esse senhor? Esperemos que não tente de novo portar-se no banco de reservas como manequim exclusivo da filha figurinista.
Tudo segue como dantes. É lamentável, porque chegamos a ouvir, depois da porrada alemã, algumas vozes pronunciarem a palavra intervenção!... 
* Roberto Costa é associado do Avaí FC. Foto acima: Internet. Texto publicado em 21/07/2014

4 Comentários:

Anônimo disse...

Era pra copiar, pelo menos em parte, o que já era, em épocas passadas, o futebol europeu, o que, certamente nos faria, eternamente, o melhor futebol do mundo.
O que temos hoje é um monte de clubes de futebol, literalmente, falidos mas pagando salários astronômicos pela contrapartida de um futebol medíocre, em nome de uma empresa que é, hoje, dona do pobre futebol brasileiro e visa, apenas, vantagens financeiras, sem qualquer foco na qualidade.
A verdade é que nosso futebol está morrendo e é preciso que sejam feitas mudanças profundas, antes que seja tarde.
A Série B alemã tem uma média de público de 30000 pessoas por jogo. Qual a média de público de nossa Série A?
A Alemanha tem, hoje, o melhor futebol do mundo, mas isso não ocorreu por eles terem copiado o Brasil, mas pelo fato de terem evoluído dentro de campo, amparados por uma organização adequada e séria, fora das quatro linhas.
Não se deve esquecer que num País corrupto como o nosso, não se haveria de poupar o futebol, no qual circula muito dinheiro, do alcance dessa desmoralização.
Byghal.

Anônimo disse...

Na última linha, onde se elu "algumas vezes, leia-se algumas vozes." - Roberto costa

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